Governo proíbe atividade das “Bets” em luta contra endividamento familiar
A medida provisória, que encerra a operação de apostas online menos de três anos após sua regulamentação, visa mitigar o impacto financeiro e social na vida dos brasileiros, gerando controvérsia e debates sobre o futuro do setor e as causas da crise de endividamento
O governo federal implementou uma proibição total das atividades das plataformas de apostas online, conhecidas como “bets”, em todo o território nacional. A decisão foi formalizada na última sexta-feira, 25 de setembro, por meio de uma Medida Provisória (MP), que estabelece um prazo até as 23h59 do dia 5 de outubro para que os apostadores resgatem quaisquer saldos de suas contas. A partir do dia 6 de outubro, os sites de apostas serão bloqueados, marcando uma reversão significativa na política que, em dezembro de 2023, havia sancionado a Lei das Bets, regularizando o setor.
A justificativa primordial para essa ação contundente é o combate ao alarmante nível de endividamento das famílias brasileiras. Atualmente, aproximadamente 82% dos lares no país enfrentam algum tipo de débito, seja a vencer ou em atraso, um recorde histórico. As empresas de apostas são apontadas como um fator de agravamento, desviando bilhões de reais do orçamento das famílias. Apesar de programas pré-existentes de renegociação de dívidas, como o “Desenrola Brasil”, a administração federal intensificou a busca por soluções diretas para o problema das apostas.
As autoridades também destacam os severos custos sociais e de saúde pública associados à disseminação dos jogos online. Relatórios indicam um crescimento de cerca de 140% nos atendimentos relacionados ao vício em jogos entre 2018 e 2025. Mais de 1,3 milhão de pessoas já optaram pela autoexclusão de sites de apostas, com mais da metade dessas decisões motivadas por problemas de saúde. Estudos sugerem que o custo social anual resultante das apostas pode alcançar R$ 38,8 bilhões, dos quais R$ 30,6 bilhões estão diretamente vinculados a questões de saúde, incluindo um risco significativamente maior de mortalidade para indivíduos com transtorno de jogo. O discurso governamental enfatiza a necessidade de proteger as famílias e a saúde mental da população, descrevendo a influência das apostas como “um câncer” que corrói a renda.
A proibição abrange todas as modalidades de apostas online, incluindo cassinos virtuais e apostas de quota fixa. Para solidificar a medida, um projeto de lei será apresentado ao Congresso Nacional, visando criminalizar as operações e os responsáveis pelas plataformas. Enquanto a MP entra em vigor imediatamente, dependendo de aprovação legislativa em 120 dias, o projeto de lei seguirá um trâmite parlamentar distinto. Adicionalmente, o governo lançará um novo programa de renegociação de dívidas focado em débitos antigos de pessoas físicas, com a particularidade de que o governo comprará essas dívidas com desconto. A fiscalização será rigorosa, com o bloqueio de transferências financeiras para CNPJs ligados a apostas e a colaboração de órgãos como a Polícia Federal, Receita Federal e Anatel para a desativação de sites irregulares, e o público será incentivado a denunciar atividades ilegais.
Contrariamente à postura governamental, representantes da indústria de apostas expressaram forte oposição, classificando a decisão como um golpe devastador para o setor. Há uma preocupação generalizada de que a proibição resultará na migração das atividades para a clandestinidade, alimentando um mercado ilegal que já era expressivo mesmo sob regulamentação. O setor defende que o aperfeiçoamento das regras, o fortalecimento da fiscalização e a ampliação dos mecanismos de proteção ao consumidor seriam abordagens mais eficazes.
As repercussões financeiras para o mercado são consideradas consideráveis. Estima-se uma perda imediata de R$ 1 bilhão em patrocínios para clubes de futebol. O governo também deixará de arrecadar impostos que totalizaram quase R$ 10 bilhões em 2025, além dos R$ 2,5 bilhões já recebidos em outorgas de empresas para operar legalmente. As companhias do ramo, que fizeram investimentos significativos sob o regime de regulamentação, consideram solicitar ressarcimento e alertam que a instabilidade regulatória afasta investimentos internacionais e prejudica a credibilidade jurídica do país. Projeta-se ainda a perda de pelo menos 15 mil empregos diretos e indiretos com a medida.
Embora as apostas online tenham intensificado o problema, o endividamento das famílias brasileiras é reconhecido como um fenômeno complexo e estrutural, com raízes em fatores anteriores à ascensão das “bets”. Altas taxas de juros, a proliferação de cartões de crédito e ofertas de crédito por vezes predatórias são componentes-chave. No entanto, as perdas líquidas dos apostadores, que atingiram R$ 62,5 bilhões em 2025 – uma média de R$ 5,2 bilhões por mês –, agravaram a situação econômica, retirando recursos que poderiam circular no comércio e gerando um “efeito bola de neve” onde débitos de cartão de crédito são usados para financiar apostas, perpetuando o ciclo de inadimplência.
A timing do anúncio, a poucos dias do primeiro turno das eleições, também foi notado por analistas. A medida é vista como uma estratégia para angariar o apoio de segmentos do eleitorado, incluindo eleitores de centro e mulheres, especialmente evangélicas, que são percebidas como particularmente vulneráveis aos efeitos do endividamento familiar relacionado às apostas. Essa iniciativa se soma a uma série de outros anúncios governamentais recentes que buscam reforçar a base de apoio popular.

