Brasil e Índia fazem confronto histórico em Calcutá marcado por contrastes e expectativa
Amistoso inédito encerra fase de testes da Seleção Brasileira, mas o alto custo de R$ 36 milhões e a crise na federação local geram protestos e pedidos de boicote no país anfitrião
A seleção brasileira masculina de futebol disputa nesta sexta-feira (3) um amistoso inédito contra a Índia, na cidade de Calcutá, em um evento que encerra uma importante fase de preparação do time sul-americano e coloca os holofotes sobre o desenvolvimento do futebol no país asiático, que enfrenta desafios internos e externos. O jogo, marcado para as 11h (horário de Brasília) no estádio Vivekananda Yuba Bharati Krirangan, conhecido como Salt Lake, representa a primeira vez que as duas nações se enfrentam no futebol profissional, com a seleção brasileira atuando em solo indiano pela primeira vez na história.
Para o Brasil, a partida na Índia é o desfecho de uma sequência de amistosos internacionais, servindo como uma etapa final do novo ciclo sob o comando de sua comissão técnica. A equipe encara o compromisso com seriedade, utilizando a ocasião para aprimorar a preparação e observar novos talentos, enquanto experimenta uma cultura futebolística distinta. No histórico recente, vale ressaltar que as seleções femininas dos dois países já se enfrentaram uma vez, em 2021, com vitória expressiva do Brasil por 6 a 1.
O cenário do futebol indiano, contudo, é permeado por um histórico de aspirações e obstáculos. A seleção masculina jamais conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo, tendo a oportunidade mais próxima em 1950, quando obteve a vaga após desistências nas eliminatórias asiáticas, mas optou por não participar do torneio. Atualmente, a Índia ocupa a 138ª posição no ranking da FIFA, refletindo uma trajetória de desenvolvimento ainda em consolidação.
Recentemente, o futebol indiano enfrentou turbulências, incluindo uma suspensão da FIFA em 2022 por identificação de interferência governamental na federação nacional. Em 2025, uma nova ameaça de sanção surgiu devido à morosidade na aprovação do estatuto indiano, um processo que se estendeu por cerca de cinco anos. O desempenho esportivo também aponta para desafios, com a equipe vindo de uma sequência de cinco amistosos sem vitórias, e não tendo alcançado a classificação para a Copa da Ásia após duas participações consecutivas. O seu título mais recente foi em 2021, na Copa SAFF, uma competição regional do sul da Ásia.
Apesar da magnitude do adversário, a realização do amistoso gerou consideráveis críticas dentro da Índia. Setores da imprensa, ex-jogadores e dirigentes esportivos locais questionaram a escolha do confronto, especialmente pelo conflito de datas que levou à ausência da seleção indiana na ASEAN Cup, um torneio oficial da FIFA considerado mais adequado para enfrentar rivais de nível similar. A organização do evento, estimada em cerca de 6 milhões de euros (aproximadamente R$ 36 milhões), também foi alvo de objeções, com argumentos de que o valor poderia ser melhor investido na infraestrutura e no desenvolvimento do futebol no país. Há, inclusive, apelos para que o público não compareça à partida, em sinal de protesto.
Dessa forma, o encontro entre Brasil e Índia se configura como um evento de múltiplos significados: para o Brasil, mais uma etapa em sua jornada de renovação e preparação; para a Índia, uma rara oportunidade de visibilidade internacional em meio a discussões sobre o futuro e a gestão do seu futebol.

